Artistas

Inácia Terezinha

São Gonçalo do Rio das Pedras / MG *1980

Inacia é o doce e e o cítrico da dona de casa que acaricia a abóboda da poesia no gesto cotidiano.
Minas Gerais até, nú! Mesmo porque o bordado vem do Aleijadinho até o Clube da Esquina! – Pedro Olivotto

Arte pra mim é enxergar no escuro… – Inácia Terezinha

Inácia Terezinha nasceu em 1980, em São Gonçalo do Rio das Pedras, no Vale do Jequitinhonha, sertão de Minas Gerais. Filha de família pobre, desde pequena aprendeu a aprendeu a bordar com a mãe, que era lavandeira e a quem ajudava na lida. Embora não conheça nomes e técnicas, ela transpira arte e borda sua expressão mais autêntica sem medo de errar ou das críticas. Borda o que sente, o que enxerga na escuridão de sua arte, a poesia que flui de seus lábios, imaginação, coração. Agulha, tecido e linha, em pontos inexatos, traçam e revelam pura poesia.

“Com uma mão ela segura o pedaço de tecido, enquanto a outra dança para cima e para baixo, mergulhando a agulha no pano para criar formas que celebram a poesia do cotidiano. Ela busca inspiração na criança e nas catingas de ciranda, no vento que dá asas à pipa, no Ipê Amarelo palco de tantas extrapolias, na pedra que escuta o murmúrio das lavadeiras, no diálogo entre os corpos do rio e da mulher….

Vejo os bordados da Inácia Terezinha, com uma linguagem mais visceral que técnica, onde as linhas têm potencial também para o discurso político, envolvendo questões étnicas, sociais e de gênero, ainda que delicadamente nivelados. Dessa forma, o seu bordado constrói uma camada a mais de significados na sua própria memória, colocando a sua memória para se encontrar com outras tantas memórias possíveis, outras histórias de vida e outras biografias.

A poesia da Inácia passa pelo seu corpo. Esse corpo feminino como território de urgência e resistência, como memória e pulsação. Bordar é falar dessa realidade pelo corpo, desse fio que tem uma construção histórica ligada ao fazer feminino.

Como a artista mesmo disse

(…) com inspiração faço o que me convém
As mãos vão bailando, feito borboletas…
Bordando versos, com rimas bem-feitas.
Parar já tentei, deixar tudo de lado.
Não me foi permitido “poemas são recados”.
Essa voz que insiste, que persiste.
Vem para bagunçar, vem pra ajeitar.
Vem alertar, conscientizar.
Ora tristeza, ora alegria.
Será vós a voz do meu guia? (Inácia Terezinha, 2019)

Em cores, ela alinhava a sua intimidade, constrói uma narrativa que como um abraço nos convida a mergulhar em sua história e inebriados pela poesia saboreamos a cada ponto, nó, letra: a sua força, sua beleza, sua tristeza, seu pensamento e a sua arte.”

Aline Lages

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