Inácia aprendeu a bordar com a mãe, que era lavadeira. Sem saber nomes e técnicas, passou a bordar suas poesias, após conversar com Pedro Olivotto sobre essa atividade paralela ao bordado. Agulha, tecido e linha, em pontos inexatos, traçam e revelam a poética de suas obras.
Com uma mão ela segura o pedaço de pano, enquanto a outra dança para cima e para baixo, mergulhando para criar formas que celebram a poesia do cotidiano. Ela busca inspiração na criança e nas catingas de ciranda, no vento que dá asas à pipa, no Ipê Amarelo, na pedra que escuta o murmúrio das lavadeiras, no diálogo entre os corpos do rio e da mulher.
Seus bordados possuem uma linguagem mais visceral que técnica, onde as linhas têm potencial também para o discurso político, envolvendo questões étnicas, sociais e de gênero, ainda que delicadamente nivelados. Assim, a poesia da Inácia passa pelo seu corpo: esse corpo feminino como território de urgência e resistência, como memória e pulsação. Bordar é falar dessa realidade pelo corpo, desse fio que tem uma construção histórica ligada ao fazer feminino.

